2010/04/28

Os pais... ai os pais...

Força, muita força é que te desejo. Poderá ser difícil. Poderá até não ser tão difícil como tu imaginas. Mas é necessário. Eu silenciei as palavras que precisava dizer, por achar que tudo estaria bem neste acordo "tu não dizes, eu não pergunto". Achei que estaria a ser altruista, por não lhes obrigar a essa conversa, logo esta familia tão pouco dada a falar sobre as coisas importantes. Fui também egoista, pois ao fazê-lo estava primordialmente a proteger-me do que poderia vir a ouvir. E fi-lo durante 10 anos. Afinal, ambas coabitámos com os meus pais, e após mudar para casa própria os convites para visita ou eventos familiares eram sempre extendidos à Lu, ao ponto de se terem tornado desnecessários porque seria óbvio que ela estaria presente. Para quê, falar? Certo?

Errado. Tu precisas, independentemente de ser custoso ou não, de o fazer. Porque agora pode ser difícil, mas os teus pais irão passar pelas fases normais do processo até chegar à aceitação. E quando chegar aí, será muito, muito bom. A melhor conquista que tu poderás alcançar, querida Orquídea. E a desconstrução dessa dúvida que persiste em ti, é necessária. Para tua sanidade. Eu soube que eles sabiam, 5 meses antes da minha mãe morrer. E foram os melhores 5 meses da minha vida. A minha mãe sabia, e por muito difícil que tivesse sido compreender e aceitar isso, ela amou-me o suficiente para aceitar (me). E o meu pai, lá com o seu jeito disse "já me chatei muito, agora não me quero chatear com mais nada na vida". E eu de repente tinha superpoderes. Tinha a meu lado a mulher que amo, que estava grávida da nossa tão esperada filha, e os meus pais aceitavam-me. Os meus medos e dar ouvidos aos meus irmãos que me diziam que não tinha o direito de fazer os meus pais passarem por isso, impediram-me de me sentir uma super mulher durante, não digo 10, mas 5 anos seguramente.

Portanto querida Orquídea, quando tiver que ser, será. Mas tem fé neles e em ti.

6 comentários:

Papoila e Orquídea disse...

Querida Nina,
Um dia terá de ser, eu sei. Já julguei que o melhor era não falar nunca, as conversas sérias também nunca foram o nosso forte e um tema destes seria demasiado exigente para a minha família. Mas já compreendi que não. O peito pesa muito e a mentira sempre me incomodou demasiado. Esta conversa que não se faz tem vindo a agravar a minha relação com os meus pais, eu sinto-o (e eles também), eu sei que o dia chegará.
Mas estou à espera. Queria uma independência que ainda não tenho, um sítio onde me refugiar caso corra pelo pior. Preciso dessa segurança e, felizmente, já não falta tanto assim. Assim que as palavras saírem, sei que vou sentir-me muito mais leve. Não deverá ser fácil nem rápida a aceitação, mas o facto de existir verdade será um grande alívio. E, tenho essa fé, sabes?, de que tudo termine bem. Entretanto, o compasso de espera vai apertando o nó.
Obrigada pelas palavras, dão-me ainda mais força. Beijinho grande*

Lana disse...

Nina,
Meu coração apertou ao ler essas tuas palavras... simplesmente pq qdo optei por ter essa conversar não houve ninguém, NINGUÉM a me estender a mão.
Nem um post, nem um telefonema, NADA.
Meu Deus como foi custoso, como foi dolorido ver minha mãe virar-se e entender que talvez ela não fosse voltar.
Acho que ela nunca será a mesma. Mas nem eu.
Os dias (e anos) antes insuportáveis estão se tornando mais leves.
Ainda não chegamos onde eu espero.. Mas já saímos do lugar.
Ela já liga em nossa casa, já cumprimenta minha esposa e a respeita como tal.
O importante pra mim (E esse é meu conselho que nem foi pedido à amiga que nem conheço) é que a segurança de uma verdade dolorida me faz mais orgulhosa de mim ao me olhar no espelho pela manhã, do que a mentira velada dos três primeiros anos.

Não me arrependo nem um dia.

Anonimus disse...

Olá!

Talvez a melhor maneira de sair do armário seja ... aos bocadinhos ... eu explico.

Começar por abordar os amigos que se sabe irão reagir bem e criar um apoio emocional.

Depois, ir seleccionando os familiares um a um, começando com os mais liberais e que saibam guardar segredo (atenção! uma má escolha pode estragar tudo!)
E ir criando aliados dentro da família até atingir uma massa crítica que permita abordar os mais conservadores.

Caso toda a família seja homofóbica sugiro o conselho de Dan Savage: esperas até seres independente e depois eles que escolham se querem continuar a ser a tua família ou não!

http://www.youtube.com/watch?v=_SgkviV9GIY


Este homem é o máximo!

Dharma disse...

Como eu te entendo... Como eu entendo tudo o que a orquidea esta a passar! E, não querendo abusar, este post serviu também para mim...

Obrigada Nina

Dharma

a ana do 2º esquerdo disse...

:) vou brincar um pouco com a situação. eu saí do armário graças ao meu amigo que em 10m tratou do assunto...se quiserem ele trata do assunto :)

o que eu tenho a dizer, é que os pais nos surpreendem, acreditem em mim, ando nisto há 20 anos. eu sei :)

os pais sao seres que nos amam incondicionalmente,massssss são seres humanos, cheios de erros, incertezas e certezas absolutas.

vai custar a eles entenderem, mas pergunto, quanto tempo levamos nós a aceitar e a perceber que somos lésbicas??

é assustador, ficamos com as mãos a suar, temos medo que eles deixem de gostar de nós....nunca se fala no medo que nós sentimos. (vou escrever sobre isso na minha chafarica.)

no entanto, está nas nossas mãos explicarmos a eles que somos assim, que somos felizes, e mais, que não somos diferentes...

e eles lá lidaram com as coisas como eles sabem, uns demoram mais que outros, mas eles amam-nos.

e sair do armário, leva o seu tempo, mas nao podemos deixar que isso nos amargure.

se precisarem de falar, o 2º esquerdo lá está a dizer parvoíces. talvez vos arranque um sorriso.

Nina disse...

Orquídea, esta foi a minha opinião. Sei que é muito discutível, que muita gente tem opinião contrária, mas para mim continua a ser preferível "come clean" com quem amamos,embora tendo em conta questões como as que referiste (independencia económica, término dos estudos, etc). Um beijo grande para ti e parabens pelo recente coming out com o teu mano :)

Lana, é tudo isso aí. Exactamente como sinto. Beijos para você (não desaparece, ok?)

Anonimus, é isso que tentamos fazer, mas às vezes é bastante dificil prever quem vai reagir bem ou mal. Digo por experiência própria. Já tive surpresas e dissabores.

Dharma, se de vez em quando conseguir dizer algo que sirva para ajudar alguém, já fico feliz ;)

ana do 2º esquerdo, again, tal e qual como dizes. Os nossos pais, como nós, precisam de passar por diversas fases até chegar à aceitação. Não quer dizer que a aceitação aconteça sempre, inevitávelmente. Mas há que ter um bocadinho de fé (cada vez que falo em fé, lembra-me de uma amiga... e eu que lhe dizia que já não tinha fé...) E... pssst: adoro o teu sentido de humor :)